5 de novembro de 2013

A FORMAÇÃO DO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO

Se pensarmos no cânon do NT como uma lista “encerrada” de livros reconhecidos, os principais acontecimentos são bem conhecidos e em geral não são questionados. A primeira dessas listas encerradas de que temos conhecimento é a de Marcião 140 D.C. Ele fazia distinção entre Deus criador do AT, considerando inferior, e o Deus-Pai revelado em Cristo, acreditando, assim, que a igreja tenha de rejeitar tudo aquilo que se relacionava com esse Deus inferior. Mas embora a lista de Marcião seja a primeira, não se pode dizer que a própria ideia de uma Bíblia cristã seja obra de Marcião. As cartas de Paulo já estavam circulando em forma de coleção, e provavelmente o mesmo acontecia com os quatro evamgelhos canônicos.

Outra lista primitiva, também de procedência romana, datada de cerca do fim do segundo século, é o documento geralmente conhecido como “Fragmento Muratoriano, embora praticamente sem valor como orientação quanto à origem dos livros do NT a que ela se refere, reflete a opinião da igreja universal que reconhece um cânon do NT não muito diferente disso. Faltam pedaços da lista, de modo que Mateus e Marcos não aparecem, mas sem dúvida são pressupostos, visto que menciona-se Lucas como terceiro evangelho e João como o quarto. Atos, as nove cartas paulinas dirigidas as igrejas e quatro a indivíduos (Filemon, Tito, 1 e 2 Timóteo), Judas, duas epístolas de João e dois apocalipses: o de João e o de Pedro. O pastor de Hermas é mencionado como digno de leitura (i.é na igreja) mas não deveria ser incluído entre os escritos proféticos ou apostólicos.

Quanto a isso, a fonte mais importante provavelmente é de Eusébio de Cesaréia (340), cujos a ponto de vista são baseados em grande parte nos pais alexandrinos Clemente e Orígines. Eusébio elabora uma classificação tripartite: os reconhecidos (Tiago, Judas, 2 Pedro, e 2 e 3 João), os livros questionados (Atos de Paulo, Pastor de Hermas, Apocalipse de Pedro, epístola de Barnabé, o Didaquê e, talvez, o Apocalipse) e os livros introduzidos pelos hereges em nome dos apóstolos (Evangelho de Pedro etomé, atos de André e João, e escritos semelhantes), mais rejeitados por aqueles que Eusébio considera ortodoxos.Na primeira categoria Eusébio inclui os quatro evangelhos, Atos, 14 epístolas paulinas, 1 Pedro, 1 João e, aparentemente Apocalipse.

Para resumir: o processo de coligir os escritos apostólicos confiáveis iniciou-se nos tempos do NT. No século ll houve exame desses escritos mediante a citação da autoridade divina de cada um desses 27 livros d NT. No século ll, as dúvidas e as objeções a respeito de determinados livros prosseguiram, culminando nas decisões dos pais da igreja e dos concílios influentes do século lV. A partir de então, ao longo dos séculos, a igreja vem sustentando a canonicidade desses 27 livros.

Quaisquer que tenham sido as pressões que estimularam a igreja a publicar listas canônicas – perseguição, distância do Jesus histórico, a pressão dos montanistas, o surgimento do gnosticismo e de outros movimentos que tinham escrituras que devem ser rejeitadas – foram basicamente três os critérios que a igreja empregou nos debates para determinar quais livros eram canônicos.

1 - Era a conformidade à regra de fé, verdade cristão reconhecida como normativa das igrejas;
2 - Apostolicidade, aqueles que estiveram em contato direto com os apóstolos;
3 - A aceitação disseminada e continua de um documento e seu uso por igrejas em toda parte.

A importância do Cânon do NT

Desde de o princípio houve uma mensagemoficialmente reconhecida. Já no início de sua pregação Jesus colocou a si próprio como autoridade em pé de igualdade com as escrituras do AT, cumprindo-as. O centro e fonte de toda revelação da nova aliança, reconhecida como oficial repousa , em última instância, no filho (Hb.1.2). Três elementos de prova são imporantes:

1 - Tradição, ou seja, a transmissão oral;
2 - Papias, registrada por Eusébio, uma prova contundente da tradição oral;
3 - A circulação desses materiais por conta das igrejas, promoveu seu uso como códices.

Finalmente, deve-se rapidamente assinalar quatro aspectos contemporâneos da importância do cânon:

1 - Alguns tem sustentado que se deve abolir a noção de cânon. Dizem que não há diferenças qualitativas entre os livros do NT e outros textos antigos;
2 -Devemos pensar em um cânon como aspiral, na qual os elementos exteriores vão gradualmente abrindo espaço para o núcleo básico;
3 - Pressuposição central é que, não importando quais fontes e pressões tenham estado presentes na elaboração das escrituras conforme as conhecemos, o texto na forma em que se encontra representa a maneira de a igreja lidar com suas próprias tradições, inclusive as interpretações peculiares estabelecidas por conexõesintrabíblicas, e estas devem ser aceitas como normativas para a igreja.

Em suma , o fato é que Deus é um Deus que se revela, fala e é fiel à aliança, tendo revelado de modo supremo num personagem histórico, o messias Jesus, estabelece a necessidade de um cânon.