8 de agosto de 2010

Para Que Serve a Igreja?

1. Começamos por assumir o fato de que não vivemos segundo a Ordem da Criação (Jardim do Éden), nem vivemos segundo a Ordem da Restauração (Nova Jerusalém), mas na História, tempo, espaço e conjuntura, marcados pela pálida presença da imago dei e pela realidade do pecado, consequência da Queda, da desobediência original;

02. Assumimos o fato de que o presente estado de coisas é transitório, que caminhamos de uma situação que se foi para uma situação que se instaurará (escatón), e que esse não é um interregno de abandono, mas que o Criador reina, derrama sua Graça Comum e é Providente. Vivemos sob um Deus que intervém mesmo quando não compreendemos, nem vemos a sua intervenção;

03. Esse Deus que intervém e providencia, promove o seu processo redentor e restaurador por meio de alianças, individuais e coletivas. A Primeira Aliança coletiva, com o povo de Israel, afirma o monoteísmo, transmite a Lei, ensina e admoesta pelos profetas, aponta para uma ética pública e privada superiores, e prepara o espaço para o advento do Messias;

04. A Encarnação do Messias é o momento central da História, e a culminação do processo redentivo. O Messias veio, encarnou, ensinou, deu exemplos, realizou milagres, padeceu e morreu pelos pecados, ressuscitou e está à direita do Pai, de onde virá para julgar os vivos e os mortos. A Encarnação, a Cruz Sangrenta e o Túmulo Vazio são os fatos centrais para o advento da Era da Graça, que substitui a Era da Lei. E quem vai ser portador dessa mensagem?

05. O Espírito Santo soprado no Dia de Pentecostes inaugura a comunidade messiânica, que vive e anuncia o Caminho. É inaugurada a nova aliança, chamada Igreja, que é herdeira dos atributos da primeira aliança, conforme nos ensina o apóstolo Pedro: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. O novo Povo de Deus não é geográfico, mas um povo de todos os povos, para todos os povos;

06. A Igreja nasce em um contexto de obediência piedosa dos discípulos, que esperam pelo kairós, que não se precipitam, nem promovem a obra por conta própria. No momento de Deus, as coisas aconteceram. Há uma dimensão de sobrenaturalidade, de presença fundante. O incapaz é capacitado para articular e anunciar um discurso coerente, que move, e que transforma. Não uma colagem de indivíduos isolados, mas uma comunidade, que busca a verticalidade da adoração e do louvor, que busca a horizontalidade da celebração dos sacramentos, da partilha, do ensino e do serviço. Ensaio da Nova Humanidade. Ensaio, primícia, vanguarda;

07. Aquela não era uma comunidade perfeita, mas formada por pecadores salvos, por salvos pecadores. E assim tem sido em toda a história, porque a redenção é um fato e a santificação um processo;

08. Aquela comunidade surgia para gerar outras comunidades do mesmo povo, de Jerusalém até os confins da terra, portadora de uma missão integral, que inclui anúncio, comunhão, ensino, serviço e profetismo. Desinstalada e desinstaladora, essa é uma comunidade que confronta as potestades espirituais e os poderes temporais, sempre sob o risco do martírio;

09. Ela tem que entender o espírito do século para se explicar para o mesmo, para anunciar ao mesmo, para se confrontar com o mesmo, sempre sob o risco de ser por ele influenciada, deturpando o conteúdo da sua mensagem e a natureza da sua missão. Mas ao assumir, penetrar e influenciar a cultura, ela resgata o mandato cultural, e se torna, ela também, encarnada;

10. Sendo divina em sua origem e humana em sua composição, esse organismo vivo tem que se estruturar em uma organização para que haja estabilidade, disciplina, continuidade, governo. O sacerdócio universal de todos os crentes, na sua diversidade de dons, chamados e vocações, não dispensa o sacerdócio especial dos vocacionados. Os discípulos fazem surgir os diáconos para o ministério do serviço, os presbíteros para o ministério da Palavra e dos Sacramentos, e os bispos, seus sucessores, para o ministério da supervisão, do governo, da guarda da doutrina, sob a coordenação da pentarquia, os pais apostólicos das cinco cidades-chaves irradiadoras. Em apenas um século esse modelo estava implantado da Hispánia e Britannia à Índia;

11. Como Israel alternou períodos de glória e de miséria, de obediência e de desobediência, de esplendor e de exílio, sempre restaurado pelo seu Senhor, assim também, tem a Igreja marcado a sua trajetória de dois mil anos, enfrentando dois tipos de adversidades: as adversidades externas, manifestadas na perseguição dos poderes políticos e do confronto com o poder das ideias, em um contexto cultural onde ela deve se identificar e deve ser sal e luz, e as adversidades internas, representadas pelas porfias e pelas heresias. De certa forma, na História da Igreja, “não há nada de novo debaixo do sol”;

12. Hoje a Igreja vive sob a ameaça de um novo fortalecimento das velhas religiões, como o Hinduísmo e o Budismo, a agressiva expansão do Islã, um Secularismo travestido de Laicismo, que nos veda o espaço público e nos empurra para a irrelevância da subjetividade e dos espaços privados; que cresce ameaçador no Ocidente pós-cristão, vê a sua presença se deslocar de Ocidente para Oriente e, principalmente, de Norte para Sul, em um crescimento expressivo, porém desordenado, fracionado, marcado por ideias e práticas exóticas;

13. O espaço euro-ocidental da Igreja tem-se afastado do projeto original pelo ceticismo, pelo esfriamento espiritual, pela proliferação de heresias, com uma mensagem unitariana-universalista, uma leitura racionalista das Sagradas Escrituras, uma soteriologia universalista, uma ética relativista, não afirmando uma revelação que já se deu centralmente no interior das alianças, mas de uma revelação que ainda se dá centralmente fora das alianças, ou seja, no mundo, cabendo à Igreja apenas discerni-las e apoiá-las. A verdade única racionalista da Modernidade vem sendo substituída pela não-verdade, ou pela verdade de cada um da Pós-Modernidade;

14. O mundo, qual o Império Romano após a derrota de Cartago nas Guerras Púnicas, vive o monopólio político-militar dos Estados Unidos e o oligopólio econômico hegemonizado por um número limitado de países, com a afirmação da ideia única do liberalismo capitalista, fechando a história à criatividade, vedando o profetismo e a mensagem de esperança;

15. Enquanto isso, a quantitativamente crescente Igreja do Hemisfério Sul vai importando exotismos, criando exotismos, importando divisionismos, criando divisionismos. A Teologia da Batalha Espiritual, a Teologia da Prosperidade, o Denominacionalismo fragmentante, o avanço das lideranças personalistas, a repressão neurotizante dos usos e costumes, a falta de ética, o desconhecimento dos ensinos das Sagradas Escrituras, o desconhecimento da História Geral e Nacional da Igreja no faz ver surgir um corpo disforme e um povo confuso. Em termos de Brasil, o crescimento Protestante não resultou no decréscimo dos problemas nacionais;

16. Isso nos faz perguntar: Somos parte da solução, ou por omissão ou ação, somos parte dos problemas? Para que serve a Igreja, então? Os liberais têm diminuído a importância da Igreja que, ao contrário do que teria proposto Jesus, teria substituído o Reino, e deverá, quem sabe, até um dia desaparecer, porque o Reino não precisaria dela. O resultado vocês já conhecem: os templos vazios. Conservadores têm reduzido a Igreja apenas às comunidades locais, ou à realidade apenas humana (jurídica, sociológica, administrativa) das “denominações”;

17. Vamos entrando em um período sob o juízo de Deus. Quando não clamarmos, as pedras clamarão. Mas Deus não revogou o que saiu do seu coração. A Igreja continua a ser mistério e sacramento, e, o mais urgente, é recuperar uma Eclesiologia, uma compreensão da Igreja segundo as Escrituras, e conforme ela mesma se compreendeu, assistida pelo Espírito Santo, ao longo da história, no que chamamos de “consenso dos fiéis”. Isso requer, preliminarmente, uma rejeição de uma visão da “apostasia geral da Igreja”, uma rejeição a todo radicalismo iconoclasta, a construção de uma identidade por afirmação e não por antagonismo, a abertura para aprender com o todo da Igreja, que vai além da minha denominação, além do meu país e além do meu tempo. O futuro da Igreja depende do que fizermos hoje e o que fazemos hoje depende da recuperação do ontem. A Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, militante e triunfante 
prossegue, com a presença d’Ele, até a consumação dos séculos.

18. Oramos: “Seja feita a Sua vontade, assim na terra como no céu”. No céu, Ele garante; na terra, depende de nós. Para que serve a Igreja? Ela serve? A Igreja serve quando serve e não quando se serve.


Bispo Robinson Cavalcanti (*)
(*) Cientista político, escritor e bispo anglicano, ex-assessor da Aliança Bíblica Universitária do Brasil (ABUB), foi membro fundador e integrante da Comissão Executiva da Fraternidade Teológica Latino-Americana (FTL), da Comissão de Convocação e da Comissão de Continuação (LCWE) do Congresso de Lausanne, da Comissão Teológica da Aliança Evangélica Mundial (WEF) e da Comissão Executiva da Fraternidade Evangélica na Comunhão Anglicana (EFAC). Palestra ministrada no 3º. Congresso de Teologia da Escola de Pastores, em Niterói (RJ), na noite do dia 02/08/2010.
Posted on by Jesse Almeida in