10 de dezembro de 2009

PROVIDÊNCIA E DECRETO



Todas as obras providenciais de Deus na vida do mundo e de seus habitantes são produto do decreto eterno de Deus, que é o plano de Deus para a totalidade da sua criação. Todas as cousas que acontecem na história do mundo, das nações e dos indivíduos são o produto desse mesmo decreto. O decreto vem primeiro lógica e, então, cronologicamente; a providência é a execução temporal do decreto eterno. Todos os atos da história do mundo foram decretados por Deus antes da fundação do mundo, mas eles são realizados no decorrer do tempo pela obra providencial de Deus (Sl 2.7-8). Portanto, é justo dizer que a providência divina é um corolário necessário do decreto soberano divino. Este último é eterno e a primeira é histórica. Os propósitos eternos de Deus são realizados na nossa história de forma que os seus atos providenciais são o cumprimento do seu plano para o universo e para os indivíduos que nele habitam. O decreto divino “é a causa formal e final da presença e atividade providencial de Deus na história. Ela é o telos, o alvo.”12 Portanto, o alvo pretendido no plano eterno de Deus é concretizado na história através dos atos providenciais de Deus. 


Nada do que acontece nas vida das pessoas e das nações pode ser entendido como fortuito ou casual. Deus tem o controle sobre todos os eventos de modo que nada do que planejou vem a falhar. 


Deus tem o direito e o poder de fazer todas as coisas que ele determina fazer. Essa prerrogativa é singular do Senhor Todo-poderoso. Essa crença na obra decretiva da providência é fundamental para a nossa fé. Sem ela, a história seria uma porção de atos desconectados e sem significado e, além de tudo, sem um alvo a ser atingido, uma história sem telos, o que mostra um desgoverno de tudo o que acontece no mundo. Todavia, não é essa a crença do cristianismo histórico que seguimos. 


Depois de tratar da soberania e da singularidade de Deus nos capítulos 40 a 45, o profeta Isaías em sua profecia, afirma de modo categórico a realidade do cumprimento dos decretos divinos na história: 
    Is 46.8-11 – “Lembrai-vos disto, e tende ânimo. Tomai-o a sério, ó prevaricadores. Lembrai-vos       das cousas passadas da antigüidade; que eu sou Deus e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer, e desde a antigüidade as cousas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade; que chamo a ave de rapina desde o oriente, e de uma terra longínqua o homem do meu conselho. Eu o disse, eu também o cumprirei; tomei este propósito, também o executarei.”


O profeta está instando seus contemporâneos que duvidavam da ação soberana de Deus na história e que duvidavam da verdade de Deus, sendo infiéis e adúlteros da sã doutrina. Por essa razão, Isaías os chama de
“prevaricadores”. Deus fez com que eles tivessem os olhos voltados para o passado. Os acontecimentos da história haveriam de provar as cousas que ele estava por falar a esses prevaricadores. Ele era o único Deus fazia as cousas acontecerem por causa das suas decisões. Nada das suas decisões haveriam de falhar. Da mesma forma que sempre aconteceu nos dias passados, no presente Deus faz acontecer. Os decretos de Deus são infalíveis e tudo o que ele decreta se cumpre. Ele somente tem a prerrogativa de fazer acontecer as cousas que decreta porque ele é o único Deus. 


A obra providencial de Deus não é nada mais nada menos do que o cumprimento dos decretos divinos na vida do mundo criado. A história dos homens é o resultado da execução dos decretos divinos. Deus faz o que ele quer e sua vontade nunca pode ser frustrada. Dessa forma, o que ele decide fazer ele faz, porque este é um direito e uma prerrogativa soberana sua.


Se o leitor destas páginas é inimigo da doutrina de Deus, este assunto haverá de incomodá-lo tremendamente. É possível que o leitor chegue até à ira com a doutrina esposada neste livro, porque a doutrina da providência como o cumprimento dos decretos de Deus, haverá de trazer amargura à sua alma. A soberania de Deus transtorna a mente daqueles que são influenciados pelo humanismo vigente em nossa sociedade. A razão do incômodo que esta doutrina trará é por causa da falta de conhecimento de quem o verdadeiro Deus é e faz. Muitos leitores há que adoram um outro Deus, não o Deus e Pai de Jesus Cristo. Este Deus é soberano e faz com que todos os seus planos sejam cumpridos inquestionavelmente, e esta crença traz dissabores em alguns círculos sinergistas muito populosos em alguns lugares. 


Essas pessoas se esquecem de que todos nós somos o barro e que Deus é o oleiro. Afinal de contas, ele nos fez do barro e para o pó retornaremos. A Escritura diz que somos barro, que não passamos de cacos de barro e isso nos humilha. Os seres humanos não são nada diante de Deus, o que vai de encontro ao pensamento deles que se têm a si mesmos em alta conta. Mas a Bíblia destrói as pretensões deles. A narrativa da criação põem os homens no seu devido lugar. Por essa razão, o mundo odeia essa narrativa do Gênesis a nosso respeito. Não é sem razão, portanto, que grande parte dos homens “educados nas ciências” repudia essa parte do Gênesis, considerando-a apenas uma narrativa simbólica ou alegórica da Bíblia.


Deus faz com os seres humanos e com toda a criação aquilo que bem lhe apraz. Não somos e nem agimos independentemente da sua vontade. Todas a nossa vontade e os nossos desejos, que são expressos de modo livre, estão ligados à vontade decretiva de Deus. Somos feitura dele e, como tal, não temos direito de questionar o seu modus operandi nem os seus atos providenciais na vida dos seres humanos ou das nações.


A tendência dos homens incrédulos (e mesmo de alguns cristãos rebeldes contra os ensino da totalidade das Escrituras!) é a de serem independentes de Deus. Esse é o sonho de muitos! Mas Deus corta esse mal pela raiz nas Escrituras. Deus não reparte sua independência com ninguém! Ela é prerrogativa dele somente! Os homens sempre haverão de ser barro nas mãos de Deus, que é o grande oleiro! 


O único conforto que as pessoas terão é no reconhecimento da soberania de Deus e no senso de dependência que todos devem ter. Somos criaturas dependentes e esperamos todos em Deus. Em ninguém mais podemos esperar. A alegria de nossa vida está no fato de podemos confiar num Deus grande e poderoso, que tem o mundo inteiro em suas mãos simplesmente porque ele tem toda história em suas mãos, porque a história é o cumprimento dos atos providenciais de Deus decretados na eternidade.


Retirado pág. 20-22
Heber Carlos de Campos 
É graduado pelo Seminário Presbiteriano de Campinas (1973); fez seu mestrado em Teologia Contemporânea (Th.M.) no Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição (1987) e doutorou-se em Teologia Sistemática no Concordia Theological Seminary, Saint Louis, Missouri, EUA (1992). Foi diretor doSeminário Presbiteriano Brasil Central(Goiânia, 1985-1989) e professor do Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, foi diretor do CPAJ entre 1993 a 1999 (2004, interinamente) e tem exercido o ministério pastoral na Igreja Presbiteriana do Brasil por mais de 30 anos. É membro da Academia Paulista Evangélica de Letras (APEL). Além de artigos em periódicos brasileiros, suas obras significativas são: "O Ser de Deus e Seus Atributos" (1999), "Fé Cristã e Misticismo" (2000 – co-autor), "A Providência de Deus e Sua Realização Histórica" (2001), "As Duas Naturezas do Redentor" (2004), "A união das naturezas do Redentor" (2005), "A humilhação do Redentor - Encarnação e Sofrimento" (2008). Dr. Heber está presentemente concluindo sua próxima obra, "A Humilhação do Redentor - Sua morte e sepultamento".
Posted on by Jesse Almeida in